Críticas à Segurança do País
02/10/2011 12:52
Em recente visita ao Ceará, o ex-secretário nacional da Segurança Pública deu entrevista exclusiva ao Diário
"A Segurança Pública no Brasil não avançou e ainda continua sendo feita com se estivéssemos vivendo no século XIX. Além do que, esse estágio agravou-se mais ainda a partir de 64, quando o regime ditatorial instituiu-se no País".
Estas são algumas das afirmações do ex-titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, o consultor Ricardo Brisolla Balestreri, que esteve recentemente em Fortaleza para jornada de trabalhos, ao conceder entrevista ao Diário do Nordeste.
Segundo Balestreri, a sociedade brasileira tem pela frente sérios desafios com relação à questão da Segurança Pública, "e um deles é superar o patamar do empirismo, do amadorismo e da intervenção política para chegar ao patamar de uma visão mais científica e de continuidade. Ela não pode ser feita muito numa perspectiva de interesse do Estado e pouco nos interesses da cidadania. Mas o grande alvo do século XXI será construir uma segurança pública brasileira que seja pertencente aos cidadãos. Administrada pelo Estado, mas do cidadão, com isso poderíamos realmente nos referir aos nossos policiais e bombeiros, como nossos da comunidade, antes de tudo".
Para que isso ocorra, segundo o especialista, é necessário repensar as formas de se fazer Segurança Pública no País. "Tem de se levar em conta os índices de violência e criminalidade brasileira, que são os mais altos do mundo".
Balestreri afirma que Brasil registra, em média, 45 mil homicídios por ano. São mais mortes do que as ocasionadas por todas as guerras juntas acontecidas no planeta inteiro.
Injusta
"O questionamento cabe em razão da maneira de se fazer Segurança Pública no Brasil. Qual o motivo de não se ter conseguido reduzir os índices de violência e a criminalidade nas últimas décadas? A resposta do porquê isso ocorre está no fato de ser a sociedade brasileira injusta, com uma má distribuição de renda e que vive sobre o signo do consumismo. Quando junta-se consumismo com má distribuição de renda, se tem uma explosão de violência", justifica o consultor.
Outro mecanismo considerado retrógrado por Balestreri, é a maneira de como atua a Segurança no Brasil. Ainda é usada a forma repressiva e reativa, quando o sistema de segurança tem de ser preventivo e educativo, considera.
"A função maior dos operadores de segurança (os policiais, bombeiros e guardas municipais) é impedir que a violência ocorra, fazendo a mediação de conflito, ajudando a educar a comunidade. Ao invés disso, no Brasil nós ainda corremos atrás do estrago, que dizer, depois que a violência é cometida, vamos lá e tentamos simplesmente reprimir", exemplificou.
Para ele, está claro que a Segurança Pública tem de ter uma dimensão repressiva do ponto de vista legal, no entanto, isto não impede que antes de ser repressiva seja também preventiva. "O importante é atuarmos de forma que a violência não chegue a acontecer. Melhor a gente evitar a violência, do que depois sairmos para tentar corrigi-la. Tudo isso é uma questão de mentalidade, que deverá ser modificada. Nós temos que deixar para trás aquele modelo que se firmou em 1964 que tinha a polícia como aparato armado do Estado, para ingressar na era da democracia. Precisamos de uma Segurança firme, enérgica, mas respeitadora da lei, da ética, da moralidade e capaz de dar exemplos ao cidadão, de conduta e de como se comportar", ensinou.
Capital humano
O consultor alerta para a importância das mudanças de postura com relação ao capital humano. "Nós temos que formar os policiais, os bombeiros, os agentes penitenciários e os guardas municipais para que eles entendam que o papel deles, muito mais do que serem meros zeladores e organizadores da segurança. Eles são os promotores das transformações sociais e inspiradores de condutas cidadãs. Suas funções estão relacionadas à questão de operar os processos civilizatórios, reclamados pela nação brasileira. Um policial, antes de ser alguém que coloca ordem nas coisas, ele tem que ser um exemplo de conduta e tem que inspirar a sociedade a ter uma conduta moralmente correta", acrescentou.
Balestreri falou sobre os caminhos da transformação da Segurança e apontou o da Polícia de proximidade. Segundo ele, o Brasil, ao longo dos anos, construiu um modelo predominante de radiopatrulhamento. Esse modelo de viaturas circulando pela cidade e que, eventualmente, o cidadão solicita através do número 190.
"Esse modelo é importante, mas não deve ser o predominante. O que deve prevalecer é o modelo em que o policial caminha e conversa com a comunidade. É o policial do qual nós sabemos o nome e o sobrenome e ele sabe que nós somos e aonde nós moramos. O nosso policial. O policial da comunidade, diferente daquele que é um vulto que passa numa viatura.
Modelo
Para o especialista, o PM que interagem com a comunidade é aquele que desce da viatura, caminha, fala com as pessoas, que bate na porta das casas das pessoas para saber dos problemas. "No âmbito da Polícia Civil, precisamos que ela volte a cumprir a sua mais nobre vocação que é a investigação".
Sangue
45 mil homicídios ocorrem, por ano, no Brasil. São mais mortes do que os óbitos ocasionados por todas as guerras juntas que acontecem no mundo inteiro.
ADALMIR PONTE
REPÓRTER/ESPECIAL PARA POLÍCIA
"A Segurança Pública no Brasil não avançou e ainda continua sendo feita com se estivéssemos vivendo no século XIX. Além do que, esse estágio agravou-se mais ainda a partir de 64, quando o regime ditatorial instituiu-se no País".
Estas são algumas das afirmações do ex-titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, o consultor Ricardo Brisolla Balestreri, que esteve recentemente em Fortaleza para jornada de trabalhos, ao conceder entrevista ao Diário do Nordeste.
Segundo Balestreri, a sociedade brasileira tem pela frente sérios desafios com relação à questão da Segurança Pública, "e um deles é superar o patamar do empirismo, do amadorismo e da intervenção política para chegar ao patamar de uma visão mais científica e de continuidade. Ela não pode ser feita muito numa perspectiva de interesse do Estado e pouco nos interesses da cidadania. Mas o grande alvo do século XXI será construir uma segurança pública brasileira que seja pertencente aos cidadãos. Administrada pelo Estado, mas do cidadão, com isso poderíamos realmente nos referir aos nossos policiais e bombeiros, como nossos da comunidade, antes de tudo".
Para que isso ocorra, segundo o especialista, é necessário repensar as formas de se fazer Segurança Pública no País. "Tem de se levar em conta os índices de violência e criminalidade brasileira, que são os mais altos do mundo".
Balestreri afirma que Brasil registra, em média, 45 mil homicídios por ano. São mais mortes do que as ocasionadas por todas as guerras juntas acontecidas no planeta inteiro.
Injusta
"O questionamento cabe em razão da maneira de se fazer Segurança Pública no Brasil. Qual o motivo de não se ter conseguido reduzir os índices de violência e a criminalidade nas últimas décadas? A resposta do porquê isso ocorre está no fato de ser a sociedade brasileira injusta, com uma má distribuição de renda e que vive sobre o signo do consumismo. Quando junta-se consumismo com má distribuição de renda, se tem uma explosão de violência", justifica o consultor.
Outro mecanismo considerado retrógrado por Balestreri, é a maneira de como atua a Segurança no Brasil. Ainda é usada a forma repressiva e reativa, quando o sistema de segurança tem de ser preventivo e educativo, considera.
"A função maior dos operadores de segurança (os policiais, bombeiros e guardas municipais) é impedir que a violência ocorra, fazendo a mediação de conflito, ajudando a educar a comunidade. Ao invés disso, no Brasil nós ainda corremos atrás do estrago, que dizer, depois que a violência é cometida, vamos lá e tentamos simplesmente reprimir", exemplificou.
Para ele, está claro que a Segurança Pública tem de ter uma dimensão repressiva do ponto de vista legal, no entanto, isto não impede que antes de ser repressiva seja também preventiva. "O importante é atuarmos de forma que a violência não chegue a acontecer. Melhor a gente evitar a violência, do que depois sairmos para tentar corrigi-la. Tudo isso é uma questão de mentalidade, que deverá ser modificada. Nós temos que deixar para trás aquele modelo que se firmou em 1964 que tinha a polícia como aparato armado do Estado, para ingressar na era da democracia. Precisamos de uma Segurança firme, enérgica, mas respeitadora da lei, da ética, da moralidade e capaz de dar exemplos ao cidadão, de conduta e de como se comportar", ensinou.
Capital humano
O consultor alerta para a importância das mudanças de postura com relação ao capital humano. "Nós temos que formar os policiais, os bombeiros, os agentes penitenciários e os guardas municipais para que eles entendam que o papel deles, muito mais do que serem meros zeladores e organizadores da segurança. Eles são os promotores das transformações sociais e inspiradores de condutas cidadãs. Suas funções estão relacionadas à questão de operar os processos civilizatórios, reclamados pela nação brasileira. Um policial, antes de ser alguém que coloca ordem nas coisas, ele tem que ser um exemplo de conduta e tem que inspirar a sociedade a ter uma conduta moralmente correta", acrescentou.
Balestreri falou sobre os caminhos da transformação da Segurança e apontou o da Polícia de proximidade. Segundo ele, o Brasil, ao longo dos anos, construiu um modelo predominante de radiopatrulhamento. Esse modelo de viaturas circulando pela cidade e que, eventualmente, o cidadão solicita através do número 190.
"Esse modelo é importante, mas não deve ser o predominante. O que deve prevalecer é o modelo em que o policial caminha e conversa com a comunidade. É o policial do qual nós sabemos o nome e o sobrenome e ele sabe que nós somos e aonde nós moramos. O nosso policial. O policial da comunidade, diferente daquele que é um vulto que passa numa viatura.
Modelo
Para o especialista, o PM que interagem com a comunidade é aquele que desce da viatura, caminha, fala com as pessoas, que bate na porta das casas das pessoas para saber dos problemas. "No âmbito da Polícia Civil, precisamos que ela volte a cumprir a sua mais nobre vocação que é a investigação".
Sangue
45 mil homicídios ocorrem, por ano, no Brasil. São mais mortes do que os óbitos ocasionados por todas as guerras juntas que acontecem no mundo inteiro.
ADALMIR PONTE
REPÓRTER/ESPECIAL PARA POLÍCIA